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Taberna São Jorge retorna em grande estilo e se torna o point da CASALIV

Alguns lugares permanecem na memória de uma cidade mesmo depois de fechar as portas. A Taberna São Jorge é um deles. Durante os anos 2000, o bar criado pela fotógrafa Walda Marques tornou-se um endereço de referência para artistas, intelectuais, músicos e frequentadores que encontravam no local uma combinação pouco convencional de gastronomia, arte, música e convivência. A Taberna construiu uma identidade própria, ligada à personalidade de sua criadora e à vida cultural de Belém.

Agora, mais de duas décadas depois de marcar a boemia da capital paraense, o espaço retorna por uma temporada de três meses dentro da CASALIV, mostra de arquitetura, design, arte, gastronomia e cultura promovida pela Leal Moreira. Para recriar o ambiente, Walda se une ao designer Ugo Garcia em um projeto que procura recuperar os elementos que fizeram da Taberna um lugar singular e, ao mesmo tempo, apresentar essa história a quem não teve a oportunidade de frequentá-la.

A proposta não é apenas reconstruir um bar conhecido do passado. A intenção é reativar uma experiência que reunia diferentes expressões culturais e transformava uma saída noturna em ocasião para encontrar amigos, descobrir artistas, ouvir música e compartilhar a mesa.

Um bar que se tornou parte da vida cultural de Belém


A história da Taberna começou de maneira despretensiosa. Walda Marques imaginava abrir uma lanchonete simples, que funcionasse como uma fonte complementar de renda. Com o tempo, porém, o espaço ganhou outra dimensão. A mistura de arte, fotografia, teatro, música, gastronomia e encontros espontâneos atraiu um público diverso e fez do endereço um ponto de passagem para quem participava da vida cultural da cidade.

Entre os frequentadores estavam nomes conhecidos, como a cantora Fafá de Belém e o artista plástico José Augusto Toscano Simões, conhecido como Simões. A presença de artistas e intelectuais ajudou a consolidar a reputação do lugar, mas a identidade da Taberna não dependia de uma clientela ilustre. Seu principal diferencial estava na atmosfera informal e na capacidade de aproximar pessoas de diferentes áreas em torno de interesses comuns.

O espaço também recebeu reconhecimento por sua gastronomia e pelo atendimento, com premiações citadas por Walda Marques ao longo da trajetória do bar. A Taberna tornou-se conhecida por uma combinação que não se limitava ao cardápio ou à decoração: havia uma maneira particular de ocupar o lugar, na qual a conversa, a música e os encontros faziam parte da experiência.

A estética de Walda: mistura, reaproveitamento e personalidade


A identidade visual da Taberna era marcada por cores fortes, obras de arte e mobiliário sem a uniformidade característica de ambientes concebidos a partir de um único estilo decorativo. A composição reunia objetos de diferentes procedências, materiais reaproveitados e peças escolhidas pela relação que estabeleciam com o universo pessoal de Walda.

Essa liberdade era parte essencial do projeto original. A decoração não nasceu de uma intenção de luxo nem da tentativa de reproduzir referências de outros centros urbanos. A fotógrafa reunia elementos de que gostava e construía o ambiente por meio de uma curadoria intuitiva, na qual cada objeto contribuía para dar personalidade ao espaço.

Alguns materiais que poderiam ter sido descartados acabaram incorporados à decoração. A madeira de uma casa já demolida, por exemplo, foi aproveitada no balcão e mantida sem pintura, preservando as características com que chegou ao bar. Essa relação com os objetos e suas histórias ajudou a construir uma estética que combinava o sofisticado e o improvisado sem perder a coerência.

As pinturas em cores vibrantes também se tornaram uma marca registrada. Em conjunto com as cadeiras diferentes, os móveis e os objetos de origens diversas, elas contribuíam para uma atmosfera que não se parecia com a de outros estabelecimentos. A Taberna tinha uma linguagem própria, resultado das escolhas de Walda e de sua maneira de aproximar arte e cotidiano.

O desafio de trazer a Taberna de volta


A missão de recriar o ambiente na CASALIV ficou a cargo de Ugo Garcia. O designer trabalha a partir das referências que marcaram a identidade visual do bar, incluindo a diversidade do mobiliário e a intensidade das cores. A proposta é manter o reconhecimento de quem viveu aquela época, sem transformar a releitura em uma cópia literal do espaço original.

O desafio está em traduzir uma memória construída ao longo de anos em uma experiência que possa ser vivida novamente. A Taberna não era definida apenas por sua decoração: sua identidade também dependia das pessoas que a frequentavam, da programação cultural e da combinação entre comida, música e conversas. Recriar o ambiente, portanto, significa recuperar elementos visuais e sensoriais que ajudem a evocar essa atmosfera.

A presença de Walda no projeto aproxima a releitura de sua origem. Como fundadora, a fotógrafa conhece as referências que deram personalidade ao lugar e participa desse reencontro com um espaço que já considerava parte de um ciclo encerrado. A CASALIV oferece a oportunidade de reabrir suas portas por um período limitado, permitindo que a memória da Taberna encontre novos públicos.

A gastronomia como parte da memória afetiva


Na concepção de Ugo Garcia, a lembrança gastronômica ocupa um lugar central na experiência da antiga Taberna. O arroz de pato, os sanduíches, o bolinho de arroz e feijão e a cerveja gelada fazem parte do repertório associado às noites no bar. São elementos que remetem não apenas aos sabores, mas também aos hábitos e às situações de convivência que ajudaram a tornar o endereço memorável.

A comida, nesse contexto, não aparece separada do ambiente. Ela integra uma experiência que combina mesa, música, arte e encontros. A proposta da nova temporada é recuperar essa dimensão, fazendo com que a Taberna seja mais do que uma instalação para ser observada durante a visita à mostra.

A programação cultural também faz parte dessa intenção. Música, teatro, arte e gastronomia ajudam a reaproximar o espaço da dinâmica que marcou sua trajetória. A ideia é que o público possa reconhecer aspectos da antiga Taberna e, ao mesmo tempo, vivenciar o lugar em uma nova configuração.

Um reencontro com a história da cidade

O retorno da Taberna São Jorge à CASALIV oferece duas experiências diferentes. Para quem frequentou o bar nos anos 2000, é uma oportunidade de reencontrar referências ligadas a uma fase marcante da vida cultural de Belém. Para quem não conheceu o endereço original, é a possibilidade de descobrir parte dessa história por meio da decoração, da gastronomia e da programação.

A duração limitada também confere ao projeto o caráter de uma reabertura temporária. Não se trata de retomar definitivamente o funcionamento do bar, mas de permitir que um espaço importante na memória afetiva de seus frequentadores volte a ser ocupado por alguns meses.

Ao aproximar a memória da Taberna da proposta multidisciplinar da CASALIV, Walda Marques e Ugo Garcia recuperam uma história que ultrapassa as paredes de um estabelecimento. O que retorna é a lembrança de um lugar em que arte, comida, música e convivência se misturavam de maneira espontânea — e que, por isso, permaneceu na memória de Belém mesmo depois de fechar as portas.

SOBRE OS PROFISSIONAIS

Walda Marques é fotógrafa e artista visual paraense, nascida em Belém em 1962, com trajetória marcada pela experimentação e pela criação de narrativas por meio da imagem. Iniciou sua atuação profissional após experiências como produtora, cenógrafa e maquiadora, e aprofundou sua pesquisa fotográfica a partir do final dos anos 1980, em oficinas da FotoAtiva. Sua obra reúne retratos, fotonovelas e projetos que exploram memória, identidade e cultura, com exposições no Brasil e no exterior e trabalhos presentes em importantes coleções, como a Coleção Pirelli/MASP de Fotografia. Em 2005, fundou a Taberna São Jorge, em Belém, espaço cultural que integrou gastronomia, música, teatro e artes visuais e se tornou referência na vida boêmia da cidade. Em 2013, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura, em reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira. 


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