Em uma casa marcada pela circulação, pelos encontros e pelos estímulos da CASALIV, Verônica Lamarão escolheu trabalhar com uma ideia aparentemente simples: criar espaço para desacelerar. O Tempo Presente não se fecha em relação ao entorno nem tenta interromper a movimentação ao redor. Seu propósito é oferecer uma pausa dentro dela.
O projeto parte de uma inquietação ligada à vida contemporânea: como a arquitetura pode ajudar as pessoas a recuperar a atenção e a aproveitar o momento? Em vez de concentrar o interesse em um único elemento decorativo, a proposta reúne decisões sobre layout, materialidade, iluminação, mobiliário e som para construir uma atmosfera de acolhimento.
Madeira, pedras, tramas e tons terrosos estabelecem uma base visual serena. A luz natural modifica a percepção dos materiais ao longo do dia, enquanto a iluminação artificial, distribuída em diferentes camadas, permite criar uma atmosfera mais intimista à noite. Os vãos generosos mantêm a relação com o entorno, e a organização dos assentos favorece tanto a conversa quanto a permanência individual.
O resultado é um ambiente que busca equilibrar conexão e recolhimento. A arquitetura não exige uma forma específica de ocupação: oferece condições para que cada pessoa encontre seu próprio ritmo.
A pausa como parte do projeto
No Tempo Presente, o descanso não aparece como uma função secundária. Ele orienta a maneira como o espaço foi organizado. Em vez de criar uma área completamente isolada da casa, Verônica preserva a continuidade visual e funcional com o entorno, mantendo livres os fluxos e aproximando os assentos.
Essa organização permite diferentes formas de uso. O visitante pode participar de uma conversa, encontrar um momento de tranquilidade ou simplesmente permanecer no ambiente sem uma finalidade específica. A proposta é fazer com que convivência e recolhimento não sejam experiências incompatíveis.
A permeabilidade espacial é um dos recursos utilizados para alcançar esse equilíbrio. O ambiente mantém sua conexão com a casa, mas desenvolve uma identidade própria por meio dos materiais, da iluminação e da disposição do mobiliário.
Em uma mostra movimentada, essa escolha também estabelece um contraste interessante. O Tempo Presente não depende do isolamento para produzir uma sensação de calma. A intenção é que o conforto surja da relação entre os elementos e da liberdade de ocupar o espaço.
A madeira como memória material
A identidade visual do projeto está ligada à escolha dos materiais. Madeira, pedra, tramas e tecidos aparecem em combinações que exploram diferenças de temperatura visual, textura e acabamento. Superfícies lisas convivem com outras mais rústicas, criando uma composição que evita a uniformidade.
A madeira ocupa uma posição central nessa leitura. Para Verônica, ela é a alma do projeto, tanto pela tonalidade e textura quanto pela relação com a passagem do tempo. É um material que pode envelhecer, adquirir marcas e transformar sua aparência, incorporando ao espaço sinais de uso e permanência.
A referência à arquitetura amazônica também aparece de forma indireta. Em vez de reproduzir uma paisagem ou recorrer a símbolos regionais evidentes, a proposta trabalha a relação com a natureza por meio da matéria, das tonalidades e das tramas. A identidade territorial está presente na experiência dos materiais, sem se transformar em uma representação literal.
Essa escolha mantém o ambiente contemporâneo e, ao mesmo tempo, aproxima sua composição de referências afetivas. A materialidade não funciona apenas como acabamento: participa da maneira como o espaço é percebido e vivido.
Design contemporâneo e referências de época
O mobiliário contribui para a identidade do Tempo Presente sem transformar o ambiente em uma coleção de peças. Elementos assinados por artistas paraenses acrescentam personalidade à composição, estabelecendo pontos de interesse em diálogo com a arquitetura.
Uma das peças funciona como centro visual do espaço, concentrando o olhar e ajudando a organizar a leitura do conjunto. A intenção é manter uma relação de equilíbrio entre mobiliário e arquitetura, sem que um elemento se sobreponha aos demais.
O projeto também incorpora referências de outras épocas. O sofá de desenho orgânico recebe tecido canelado associado à estética dos anos 1970, aproximando uma forma contemporânea de uma memória material. Não se trata de reproduzir um período específico, mas de combinar diferentes temporalidades.
Essa sobreposição amplia a identidade do ambiente. As referências de época acrescentam uma camada de memória, enquanto as linhas e a organização geral preservam uma linguagem atual. O resultado não depende de uma estética vintage: nasce do diálogo entre formas, materiais e referências distintas.
A luz transforma o ambiente
A iluminação tem papel decisivo na proposta. Durante o dia, a entrada de luz natural modifica gradualmente a leitura das superfícies, revelando nuances nos materiais e nas cores. A mesma composição pode apresentar percepções diferentes conforme a incidência luminosa muda.
À noite, a iluminação artificial assume maior presença. Camadas de luz mais quente e baixa contribuem para a sensação de intimidade, enquanto pontos direcionados destacam texturas, objetos e elementos específicos da arquitetura.
Essa distribuição evita que todo o ambiente seja percebido de maneira uniforme. A luz ajuda a definir diferentes níveis de atenção e aproximação, valorizando a materialidade e acompanhando as mudanças de uso ao longo do dia.
No Tempo Presente, iluminar significa também construir uma experiência. A passagem da luz natural para a artificial acompanha o próprio conceito do projeto, baseado na percepção do tempo e na possibilidade de vivê-lo com mais atenção.
Tecnologia que não precisa aparecer
A automação de som amplia a experiência sensorial do ambiente. A proposta é construir uma paisagem sonora que contribua para a atmosfera de tranquilidade, sem transformar os equipamentos em protagonistas visuais.
Essa abordagem acompanha a maneira como Verônica incorpora a tecnologia ao projeto. Em vez de exibir recursos técnicos como demonstração de sofisticação, o ambiente os utiliza para apoiar o conforto e a experiência de quem permanece nele.
Som, iluminação e materialidade trabalham em conjunto. A madeira e as pedras oferecem presença tátil; a luz modifica a percepção das superfícies; e a sonorização acrescenta outra dimensão à experiência. O conforto resulta dessa combinação, não de um recurso isolado.
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Um novo entendimento de luxo
O Tempo Presente propõe uma leitura de luxo que se afasta do excesso e da demonstração. A sofisticação está na qualidade dos materiais, na relação entre os elementos e na possibilidade de ocupar o espaço com conforto.
Essa perspectiva dialoga com questões do morar contemporâneo. Em uma rotina marcada pela velocidade e pela multiplicação de estímulos, a casa pode assumir também a função de oferecer pausas, favorecer encontros e permitir momentos de recolhimento.
O ambiente de Verônica Lamarão traduz essa ideia em decisões concretas. Os fluxos preservam a conexão com o entorno, os assentos permitem diferentes formas de ocupação, a iluminação acompanha a passagem do dia e os materiais convidam a uma percepção mais atenta.
A proposta não é criar um espaço apartado da vida cotidiana, mas modificar a maneira como ela é vivida por alguns instantes. No Tempo Presente, o luxo está na possibilidade de permanecer, encontrar conforto e prestar atenção ao que está ao redor.
Sobre a profissional
Verônica Pereira Lamarão é arquiteta e urbanista, especializada em gestão de projetos, BIM e planejamento da construção civil. Com experiência nos setores público e privado, atua na coordenação de projetos arquitetônicos e complementares, no desenvolvimento urbano e no gerenciamento de obras.
Sócia-proprietária da WR Lamarão Engenharia e Arquitetura, lidera equipes multidisciplinares e trabalha no desenvolvimento de soluções técnicas que conciliam funcionalidade, qualidade e inovação. Sua trajetória inclui projetos nas áreas de educação, urbanismo, acessibilidade e infraestrutura, com atuação voltada à qualidade dos espaços construídos.
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