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Projeto Replicando o Passado completa 10 anos aproximando ceramistas de Icoaraci da arqueologia amazônica

“O futuro é ancestral”. Talvez você já tenha ouvido ou lido essa frase em algum lugar. A ideia, que ganhou projeção a partir das reflexões do escritor e pensador indígena Ailton Krenak, parece colocar lado a lado tempos que aprendemos a enxergar como distantes. Se o futuro pode ser ancestral, talvez passado, presente e o que ainda está por vir não estejam tão rigidamente separados assim.

É justamente nesse encontro entre tempos diferentes que está o "Replicando o Passado", um projeto que nasceu em 2016 a partir da inquietação dos ceramistas do bairro do Paracuri, em Icoaraci. Eles já dominavam o saber fazer e produziam peças inspiradas nas culturas arqueológicas da Amazônia, mas queriam conhecer melhor a história que os inspirava: quem havia feito os objetos originais? Onde foram encontrados? O que poderiam contar sobre os povos que viveram na região?

Projeto reúne ceramistas, pesquisadores e estudantes de arqueologia em encontros semanais na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi (Foto: Alice Santos)

A busca por essas respostas aproximou os ceramistas dos pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e deu origem a uma parceria que completa dez anos em 2026. Por meio do projeto, os artesãos passaram a ter acesso ao acervo arqueológico original e às pesquisas desenvolvidas pela instituição para estudar e produzir réplicas contextualizadas das peças.

Um dos responsáveis por essa aproximação entre artesãos e Museu Goeldi foi o Mestre Deo Almeida. Ceramista desde 1979, ele já tinha décadas de experiência quando percebeu que dominar o ofício não respondia a todas as perguntas que surgiam diante das peças que produzia.

Mestre Deo Almeida procurou o Museu para apresentar as demandas dos ceramistas de Icoaraci em 2016 (Foto: Alice Santos)

“O saber fazer a gente sabia, conhecia. Mas algumas perguntas, como para que aquela peça tinha sido feita, como ela tinha sido feita e onde ela tinha sido feita, a gente sempre tinha, mas não tinha uma resposta detalhada”, conta.

Quando o saber fazer encontra a arqueologia

A aproximação com o Museu Goeldi permitiu que os ceramistas tivessem contato direto com objetos que, até então, eram conhecidos apenas por fotografias. Ver as peças originais de perto fez diferença também na maneira de reproduzi-las.

Imagens fotográficas nem sempre revelavam as dimensões exatas, as cores, as texturas ou todos os detalhes dos grafismos. Havia ainda uma limitação mais simples: o ângulo. Muitas fotografias mostravam apenas uma face do objeto, enquanto o outro lado podia apresentar pinturas e características diferentes. Sem acesso a essas informações, aquilo que não aparecia nas imagens precisava ser completado pela imaginação dos artesãos durante a reprodução.

Para Mestre Marivaldo Costa, a entrada na reserva técnica do Museu Goeldi foi um momento marcante. Ele já produzia peças inspiradas na cerâmica arqueológica amazônica quando foi convidado a integrar o Replicando o Passado, ainda no início do projeto.

“Quando eu chego no museu e encontro as peças que eu só via por revista, por imagem, poder tocar, poder registrar toda a peça, ali foi a realização de um dos meus sonhos”, recorda.

Mestre Marivaldo Costa é um dos nomes de maior respeito entre os ceramistas que confeccionam réplicas arqueológicas (Foto: Alice Santos)

O contato direto com o acervo, aliado às pesquisas arqueológicas, passou a oferecer mais informações para a produção de réplicas mais fiéis aos objetos estudados. Mas essa troca de conhecimentos não acontece em uma única direção. Se, por um lado, os arqueólogos aproximam os ceramistas das pesquisas e dos contextos históricos relacionados às peças, por outro, os artesãos levaram o conhecimento construído no próprio fazer.

O diálogo entre a pesquisa e o saber fazer

Nesse encontro entre conhecimentos diversos que se desenvolve a metodologia do Replicando o Passado. Curadora da coleção arqueológica do Museu Goeldi, a arqueóloga e pesquisadora Helena Lima explica que o projeto foi construído a partir das demandas dos ceramistas e arqueólogos.

Helena Lima levando ceramistas de diversos estados para conhecerem a reserva técnica. Em primeiro plano, a peça arqueológica original da cultura Marajoara conhecida como "Urna Joanes". (Foto: Alice Santos)

“É uma parceria entre a curadoria do Museu Goeldi e os artesãos-ceramistas do Paracuri no sentido de criar, reproduzir e produzir réplicas contextualizadas, a partir do acesso dos ceramistas ao acervo original e às pesquisas produzidas pelo museu”, explica.

O trabalho é desenvolvido por meio de oficinas, estudos técnicos e pesquisas históricas e arqueológicas sobre as peças e as culturas às quais elas estão relacionadas. A metodologia acompanha diferentes etapas, desde a seleção dos objetos que serão reproduzidos até a produção e a avaliação das réplicas.

Para Deo Almeida, esse contato trouxe justamente o conhecimento que ele procurava quando ajudou a iniciar a aproximação com o museu. “O Replicando o Passado nos fez entender que povos antigos que habitaram a Amazônia tinham uma história a ser contada através da cerâmica. E essa história está embutida em cada peça que a gente faz”, afirma.

Réplicas ajudam a proteger o patrimônio

Ao mesmo tempo em que aproxima os ceramistas dos objetos arqueológicos, o projeto estabelece uma diferenciação entre aquilo que pertence ao acervo arqueológico e as peças produzidas atualmente.

Todas as réplicas feitas dentro do "Replicando o Passado" recebem um selo do projeto. A identificação permite saber que se trata de uma reprodução contemporânea, e não de um objeto arqueológico original.

Segundo Helena Lima, esse controle também tem uma função de proteção do patrimônio.

“Todas as réplicas são carimbadas, elas possuem o selo do projeto, e isso garante que se trata de réplicas e não de peças originais. Isso também ajuda a inibir o comércio ilegal de peças arqueológicas”, explica.

As réplicas chanceladas pelo projeto também podem ser comercializadas diretamente pelos ceramistas participantes. Ao longo desses dez anos, coleções já foram vendidas para museus, outras instituições e colecionadores, criando mais uma possibilidade de geração de renda.

A primeira peça é original da cultura Aristé Cunani. As outras duas são réplicas em fases diferentes de acabamento. (Foto: Alice Santos)

Para Deo, esse valor econômico passou a caminhar junto com outro tipo de valorização: a possibilidade de explicar a história relacionada àquilo que produz.

“Hoje a gente reproduz uma peça não por ela ser um objeto de venda, mas uma ferramenta cultural, que traz uma história muito grande de povos que habitaram a nossa região”, afirma.

Um patrimônio que pode ser tocado

O alcance das réplicas vai além das olarias e da comercialização. Parte das peças produzidas é utilizada pelo próprio Museu Goeldi em exposições e outras ações de comunicação e educação, fazendo com que referências do acervo arqueológico possam chegar a públicos diferentes. Uma dessas possibilidades está no toque.

As peças do Catálogo Acessível são feitas com texturas para que pessoas cegas ou com baixa visão possam "ler" os grafismos. (Foto: Alice Santos)

Como as réplicas podem ser manuseadas, elas permitem criar experiências que seriam mais difíceis de realizar com objetos arqueológicos originais, que precisam seguir cuidados específicos de preservação. Para pessoas com deficiência visual, por exemplo, tocar uma reprodução significa poder perceber formas, volumes, texturas e outros detalhes que uma vitrine não permitiria conhecer da mesma maneira.

Essa experiência ganhou um novo desdobramento com a criação do Catálogo Arqueológico Acessível, composto por uma seleção de seis peças que foram miniaturizadas e adaptadas para leitura tátil. O material conta ainda com legendas em Braille, audiodescrição e conteúdo em Libras.

Os kits vêm sendo destinados a instituições de Belém e do interior do Pará, além da Universidade do Estado do Amazonas.

Para Helena Lima, essa é uma das maneiras pelas quais o projeto faz o patrimônio arqueológico alcançar públicos que antes poderiam encontrar mais barreiras para acessá-lo.

“O Replicando o Passado amplia a acessibilidade, o acesso e o alcance público do patrimônio cultural da Amazônia. Indo muito além, inclusive ao público escolar, como também beneficia a própria comunidade de ceramistas”, destaca.

Em 2023, o "Replicando o Passado" também foi reconhecido como uma tecnologia social, por uma atuação que beneficia tanto a comunidade de ceramistas quanto a promoção do patrimônio cultural da Amazônia.