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Design afetivo de Sérgio Rodrigues ganha destaque em evento na loja Chris Home Belém

O design moderno brasileiro não se explica apenas por linhas, encaixes e proporções; ele se compreende pelo afeto, pela informalidade do sentar e pela exaltação da madeira nacional. Nesta quarta-feira (16), a capital paraense foi palco de uma verdadeira aula de história, cultura e alta marcenaria durante a palestra conduzida por Joana Estellita, gerente comercial do Atelier Sérgio Rodrigues, realizada na loja Chris Home Concept, em Belém.

Detentora da representação exclusiva do Atelier Sérgio Rodrigues em toda a Região Norte, a loja Chris Home Concept reuniu arquitetos, designers de interiores e entusiastas do mobiliário autoral para revisitar os mais de 60 anos de produção do mestre carioca (1927–2014). Mais do que comercializar peças consagradas, o encontro descortinou o rigor por trás de um processo produtivo em que cada móvel é numerado, esculpido artesanalmente e carregado de narrativas que se entrelaçam com a própria história da arquitetura moderna no Brasil e no mundo.

A essência do atelier: marcenaria rara e formação de décadas

Diferente de linhas industriais em larga escala, o Atelier Sérgio Rodrigues opera sob a premissa estrita da salvaguarda patrimonial e da perfeição técnica. Durante a palestra, Joana Estellita enfatizou o compromisso de perpetuar a marcenaria artesanal utilizando madeiras nobres e raras:

  • Mão de obra ultrarrara: Formar um marceneiro qualificado para o padrão exigido pelo Atelier leva entre 8 e 12 anos de treinamento contínuo, assimilando os segredos dos encaixes tradicionais em madeira maciça, sem pregos ou parafusos aparentes.
  • Peças numeradas e certificadas: Cada exemplar que sai da oficina é rigorosamente numerado e recebe chancela de autenticidade, configurando-se como verdadeira obra de arte colecionável.
  • Curadoria seletiva: O portfólio em produção não é aleatório; respeita as escolhas feitas pelo próprio Sérgio Rodrigues em vida, garantindo que apenas peças com expressiva relevância histórica e afetiva continuem sendo materializadas.

Poltrona Carmel, por Sergio Rodrigues (Foto: Divulgação)

O encontro com Gilberto Gil e o resgate de 1. 200 obras

A institucionalização do acervo de Sérgio Rodrigues guarda um bastidor fascinante da política cultural brasileira. Nos anos 2000, durante a gestão do cantor e compositor Gilberto Gil como Ministro da Cultura, o ministério convidou nomes expressivos das artes aplicadas — entre eles o estilista Ronaldo Fraga e o próprio Sérgio Rodrigues — para pensar na doação e preservação de seus legados.

A sugestão inicial para que Sérgio doasse seus desenhos ao patrimônio público evoluiu para um conselho primordial: estruturar um instituto próprio. Sérgio Rodrigues era um acumulador inveterado e meticuloso; jamais descartava um croqui, rabisco ou estudo de encaixe.

Com o apoio da família — em especial a sintonia com seu primo e discípulo Fernando Mendes, renomado designer e marceneiro que conviveu intimamente com o mestre —, foram catalogadas mais de 1. 200 peças e projetos originais ainda em vida. Esse monumental inventário deu origem ao Instituto e balizou as diretrizes do Atelier, permitindo relançar protótipos históricos e manter viva a filosofia construtiva do designer.

O designer Sérgio Rodrigues trabalhando em sua mesa (Foto: Divulgação)

Da Oca ao cenário internacional: a revolução do "mobiliário genuinamente brasileiro"

Para compreender a magnitude de Sérgio Rodrigues, é preciso voltar a 1955, ano de fundação da lendária Oca, no Rio de Janeiro. Criada por Sérgio, a Oca não era apenas uma loja: era um espaço pioneiro e híbrido que reunia comércio, galeria de arte, escritório de arquitetura e ponto de encontro da vanguarda carioca.

No dia da inauguração, o designer entrou no espaço carregando nas próprias mãos o emblemático Banco Mocho (1954), inspirado no clássico banquinho de ordenha caipira. Aquele gesto simbolizava uma ruptura: saía de cena o mobiliário austero, rígido e colonial de matriz europeia para dar lugar a uma linguagem calorosa, despojada e conectada com a brasilidade.

Ao longo de seus 12 anos de existência (1955–1968), a Oca ditou as diretrizes da moderna residência brasileira. Mesmo após o encerramento do ciclo da loja, Sérgio jamais abandonou seu vocabulário; ao contrário, passou a desenhar para os edifícios monumentais do país e a representar o Brasil em postos diplomáticos estratégicos.

Berço de intelectuais: a herança criativa dos Rodrigues

A sensibilidade dramática, narrativa e autêntica de Sérgio Rodrigues não surgiu por acaso. Ele pertencia a uma das mais brilhantes dinastias intelectuais do Brasil: era filho do ilustrador Roberto Rodrigues e sobrinho direto do teatrólogo e escritor Nelson Rodrigues.

Inserido no efervescente "clubinho intelectual" carioca de meados do século XX, Sérgio Rodrigues imprimiu no design o mesmo olhar humanista, provocador e visceral que seu tio aplicava às crônicas e peças de teatro. Para Sérgio, uma cadeira não deveria obrigar o usuário a portar-se como um lorde vitoriano; ela deveria abraçar o corpo, permitir o esparramar-se, o descanso descalço e o bate-papo despretensioso entre amigos.

Galeria de ícones: histórias, curiosidades e segredos do design

Durante o encontro na loja Chris Home Concept, diversas criações históricas foram analisadas em seus detalhes projetuais:

1. Poltrona Vivi: a vanguarda do compensado contramoldado

Enquanto designers escandinavos como Alvar Aalto já exploravam o compensado curvado na Europa, o cenário fabril brasileiro ainda desconhecia o processo industrial de contramoldagem em madeira. Inovador, Sérgio Rodrigues desenvolveu a Poltrona Vivi, sua primeira peça contramoldada. O modelo inaugurou novas possibilidades anatômicas no país, permitindo cascas de madeira delgadas com alta resistência estrutural e curvas sinuosas sem precedentes na marcenaria nacional.


2. Cadeira Nikolas: o conceito monumental para a Editora Bloch

Quando a Editora Bloch ergueu seu icônico edifício modernista em Brasília, Sérgio Rodrigues foi convidado a desenvolver todo o projeto conceitual de interiores e mobiliário dos escritórios. Nasceu dessa encomenda a Cadeira Nikolas, uma obra-prima de ergonomia e desenho expressivo, projetada sob medida para ambientes corporativos executivos que exigiam autoridade sem abrir mão do conforto tátil.


3. Poltrona Arcos: esculpida para o Palácio do Itamaraty

A Poltrona Arcos — destaque absoluto no showroom da loja Chris Home Concept em Belém — nasceu de uma encomenda para o Palácio dos Arcos (atual Palácio do Itamaraty, em Brasília), concebido por Oscar Niemeyer. Com uma silhueta que dialoga ritmicamente com as arcadas de concreto do edifício e os jardins de Burle Marx, a poltrona traduz o equilíbrio supremo entre a monumentalidade cívica e a leveza orgânica.


4. Mobiliário diplomático em Roma: poltrona Navona e mesa Vitrine

A presença de Sérgio Rodrigues no exterior atingiu seu ápice quando o arquiteto Olavo Redig de Campos o convidou para assinar o mobiliário da Embaixada do Brasil em Roma, sediada no suntuoso Palazzo Pamphilj, diante da Piazza Navona:

  • Poltrona Navona: Desenhada especificamente para o palácio italiano, conjugando estrutura de traços limpos com estofamento primoroso.
  • Mesa Vitrine: Tornou-se um clássico diplomático, presente nas principais salas de embaixadas brasileiras pelo mundo. Com tampo em vidro que funciona como mostruário elegante e base arquitetônica em madeira nobre, a peça servia para acolher obras de arte e documentos históricos em reuniões bilaterais.


5. Poltrona Chifruda (1962): de mobiliário a escultura de colecionador

Criada para a exposição "O Móvel como Objeto de Arte" na lendária Galeria Bonino, a Poltrona Chifruda causou alvoroço pelo espaldar proeminente em formato de chifres, demonstrando a faceta mais escultórica e bem-humorada do autor. Devido ao seu caráter estritamente artístico e complexidade extrema de entalhe, sua produção foi encerrada, preservando-a como uma série finita, exclusiva e altamente cobiçada em leilões internacionais de arte contemporânea.


6. Mesa Burton e lançamentos recentes: Carmel e Arcos

Além de clássicos como a elegante Mesa Burton, com encaixes precisos e marcenaria escultural, o Atelier Sérgio Rodrigues segue em constante evolução. Recentemente, foram integradas ao catálogo a cadeira Carmel e a reedição histórica da linha Arcos, mantendo acesa a relevância contemporânea dos croquis deixados pelo mestre.


O impacto do design autoral no mercado de arquitetura do Norte

A realização da palestra de Joana Estellita na loja Chris Home Concept corrobora o amadurecimento do mercado paraense de arquitetura e design de interiores. Ao assegurar exclusividade na distribuição das peças originais do Atelier Sérgio Rodrigues, a capital paraense integra de vez o circuito das grandes coleções de arte aplicada do país.

Mais do que adquirir móveis de alto luxo, investir em uma peça do Atelier Sérgio Rodrigues significa abrigar um fragmento vivo da história da cultura brasileira — onde cada entalhe em madeira, cada pesponto de couro e cada certificado numerado celebram a arte de viver com poesia, autenticidade e alma.